“O discurso é um soberano poderoso. Embora pequeno e invisível, é capaz de ações divinas. Consegue suprimir o medo e pôr termo à dor e despertar a alegria e intensificar a paixão.”
A constatação é do grego Górgias, mestre da retórica que viveu no século V a.C. Quanto existe de verdade nela está no encantador O Discurso do Rei, filme que deleita por simplesmente contar uma boa história, sem malabarismos de câmeras, sem efeitos especiais. Só excelentes atores, roteiro bem construído, diálogos inteligentes.
George VI acaba de assumir o trono da Inglaterra. Desde menino, mal consegue balbuciar palavras quando está diante de uma pequena plateia. Em situações tensas, até mesmo o diálogo com os familiares é inviável. Sua incapacidade para os discursos protocolares é notória entre os súditos e atormenta-o cotidianamente, mas se torna dramática quando ele se vê diante da impossibilidade de falar aos cidadãos para anunciar, pelo rádio, a todo o império britânico, a terrível decisão: a Inglaterra entrará em guerra contra Alemanha nazista.
Sofremos com George. Compartilhamos com ele a percepção de que um rei que não consegue falar não é inteiramente rei. Sem palavras, ele não pode apelar aos súditos para que entreguem à Inglaterra o sacrifício que lhes será exigido. Sem elas, não logrará inflamar a audiência nem mobilizá-la numa causa comum.
Um rei gago. Uma nação à qual ele deve pedir sangue, suor e lágrimas (para lembrar a invectiva memorável de Churchill). Um discurso impossível.
Desesperado diante do fracasso iminente, George volta a pedir ajuda ao único homem que lhe havia mostrado ser possível superar aquela condição, que o havia persuadido que ele aprenderia a falar em público.
Os antigos gregos já acreditavam nisso. Inventaram a retórica e criaram escolas para ensiná-la. Suas regras não só determinavam como produzir discursos capazes de instruir, agradar e comover a audiência como também prescreviam a forma de atuação do orador para alcançar tais fins.
O professor de George não se atém aos ensinamentos dos mestres retores da Antiguidade. Os recursos terapêuticos, psicológicos e fonaudiológicos foram significativamente ampliados em 25 séculos, e ele os mobiliza a todos para melhorar o desempenho do rei. Aqui na MVL temos um novo produto chamado Avaliação Cruzada – Desempenho Comunicacional, que possibilita um olhar profundo para as qualidades oratórias dos porta-vozes e aprimorá-las de maneira até surpreendente
O desfecho do filme é conhecido: o gago torna-se orador. Os mais incrédulos podem conferir a evolução do desempenho do rei em outro filme. Esperança e Glória (John Burman, 1987) mostra uma Londres já devastada por bombardeios e, numa cena secundária, uma família reunida para o jantar atenta a mais um discurso de George VI. O pai, referindo-se ao soberano, diz satisfeito às crianças que naquele ano ele tinha se saído melhor que no anterior. E explica: “Se o rei gagueja, os seus súditos gaguejam”.


Sil, que texto bacana! A leitura valeu a pena, despertou uma vontade enorme de assistir a esse filme. Excelente abordagem, principalmente ao incluir no post o trabalho que a MVL faz com a Avaliação Cruzada.
Beijos,
Dani Rocha
Li com gosto!! Parabéns. E que os discursos signifiquem! A MVL sabe.
Excelente texto, tema e senso de oportunidade para divulgar um dos ótimos trabalhos da MVL. Ainda não vi o filme, mas agora quero vê-lo o quanto antes!
Beijos,
Chris Malta
Fantástico, Sil. O texto transpira emoção e informação.